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Secagem e armazenamento de grãos: tecnologia, qualidade e redução de perdas na pós-colheita

O avanço das tecnologias de pós-colheita tem contribuído para reduzir perdas e melhorar a qualidade dos grãos no Brasil. Entretanto, desafios operacionais e estruturais ainda comprometem a eficiência e a rentabilidade do setor.

Nathan Vanier e Equipe Grano Safe · 05/11/2026 · 4 min de leitura

Imagem de silos de armazenagem de grãos, ilustrando a importância da infraestrutura de armazenamento para a conservação da qualidade dos grãos e a eficiência da pós-colheita.

Em episódio do Grano Talks (acesse aqui) tivemos a oportunidade de conversar com o professor Moacir Cardoso Elias, referência nacional por décadas em pesquisa, ensino e desenvolvimento de tecnologias na pós-colheita de grãos.

Durante a entrevista foram abordados temas fundamentais para o setor, como a evolução da armazenagem brasileira, as perdas quantitativas e qualitativas, os efeitos da secagem sobre a qualidade do arroz, os impactos da soja avariada na industrialização e os principais gargalos das unidades armazenadoras. Neste artigo vamos destacar pontos importantes abordados na entrevista.

Prof. Moacir Cardoso Elias, em entrevista do Grano Talks

A evolução da pós-colheita e seus reflexos na qualidade

Nas últimas décadas, o Brasil passou por uma transformação significativa nas tecnologias de secagem, armazenamento e industrialização. Práticas anteriormente baseadas na experiência empírica passaram a incorporar conhecimentos científicos sobre o comportamento dos grãos e os fatores responsáveis por sua deterioração.

No arroz, essa evolução possibilitou avanços expressivos no rendimento industrial, especialmente na obtenção de grãos inteiros e na redução de defeitos relacionados ao processamento e à conservação.

É importante compreender que a qualidade obtida na lavoura não está garantida após a colheita. Ela depende diretamente das condições de transporte, recepção, secagem e armazenamento. Falhas nessas etapas podem comprometer características físicas, químicas, sanitárias e tecnológicas, reduzindo o valor comercial da produção.

Perdas quantitativas e qualitativas: um custo muitas vezes invisível

Após a colheita, os grãos continuam biologicamente ativos e consomem parte de suas reservas por meio da respiração. Dependendo das condições de umidade e temperatura, essa atividade metabólica pode se intensificar, provocando perda de matéria seca.

Além disso, condições inadequadas de conservação favorecem o desenvolvimento de insetos, ácaros e microrganismos, que contribuem para o consumo de reservas e para a deterioração dos grãos.

As perdas qualitativas, por sua vez, podem se manifestar por alterações na cor, no odor, no sabor, na composição e na qualidade sanitária. Embora nem sempre sejam percebidas diretamente nos controles de estoque, seus efeitos aparecem na forma de descontos comerciais, menor rendimento industrial e aumento dos custos de processamento.

“Uma unidade armazenadora pode apresentar um balanço de massa aparentemente satisfatório e, ainda assim, acumular prejuízos significativos pela deterioração da qualidade do produto.”

Secagem e qualidade do arroz: cuidados que determinam o rendimento industrial

O arroz apresenta sensibilidade às condições térmicas empregadas durante a secagem. Temperaturas inadequadas de secagem para um determinado fluxo de ar podem provocar fissuras internas, aumentando a suscetibilidade à quebra durante o beneficiamento.

Outro fator crítico é o intervalo entre a colheita e o início da secagem. A permanência de grãos úmidos por períodos prolongados favorece processos de deterioração, com reflexos sobre a qualidade final.

Na entrevista com o professor Moacir Elias, ele destaca que esses cuidados são especialmente relevantes na produção de arroz parboilizado. Embora a parboilização possa melhorar a resistência física dos grãos e o rendimento de inteiros, ela não elimina defeitos decorrentes de uma matéria-prima deteriorada.

Defeitos metabólicos em arroz parboilizado

A melhoria da qualidade do arroz parboilizado brasileiro foi resultado de avanços integrados na secagem, no armazenamento e no controle das etapas industriais, especialmente encharcamento e tratamento hidrotérmico.

Soja avariada: impactos que ultrapassam a classificação comercial

Na soja, a ocorrência de grãos fermentados, mofados ou com outras avarias não representa apenas um problema de descontos na comercialização. Essas alterações podem comprometer o aproveitamento industrial, reduzindo o rendimento de extração de óleo e aumentando as perdas e os custos durante o refino.

Grãos de soja fermentados

Os efeitos também atingem o farelo e outros derivados proteicos. Quando a deterioração está associada ao desenvolvimento de microrganismos toxigênicos, existe ainda o risco de comprometimento da segurança dos produtos destinados à alimentação animal.

Dessa forma, a secagem e o armazenamento adequados são essenciais não apenas para evitar o avanço das avarias, mas também para preservar o potencial de aproveitamento econômico e a segurança dos derivados.

Os gargalos atuais da armazenagem brasileira

A expansão e a diversificação da produção agrícola impõem novos desafios à infraestrutura de pós-colheita. Enquanto as áreas cultivadas, as culturas e os sistemas de produção podem mudar rapidamente, as estruturas de armazenagem são investimentos de longo prazo, frequentemente projetados para determinadas condições operacionais.

Nesse contexto, um dos principais desafios atuais está na capacidade de recepção dos grãos durante a safra. O aumento da velocidade de colheita exige sistemas capazes de receber grandes volumes em períodos concentrados, evitando filas, atrasos e permanência excessiva de produtos úmidos.

Fila de caminhões para descarregamento de grãos

Soluções como automação de aeração, resfriamento e melhorias no gerenciamento dos fluxos operacionais podem contribuir para aumentar a eficiência das instalações existentes. A modernização precisa considerar o conjunto da unidade armazenadora, integrando recepção, pré-limpeza, secagem, movimentação e conservação dos grãos.

Conhecimento e gestão: caminhos para uma pós-colheita mais eficiente

O desenvolvimento tecnológico brasileiro demonstra que é possível reduzir perdas e elevar a qualidade dos grãos quando pesquisa científica, equipamentos adequados e profissionais capacitados atuam de forma integrada.

Mais do que investir em ampliação de estruturas, é necessário melhorar o aproveitamento das instalações existentes, aperfeiçoar os controles operacionais e compreender os mecanismos responsáveis pela deterioração dos produtos.

A eficiência da pós-colheita deve ser medida não apenas pelo volume processado, mas principalmente pela capacidade de preservar a quantidade, a qualidade e o valor econômico da produção.

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